Marabraz: quando o conflito familiar ultrapassa a família e ameaça a empresa
- Em 26/08/2026
Empresas familiares costumam nascer de uma combinação poderosa: empreendedorismo, confiança e esforço compartilhado. Muitas atravessam décadas, crises econômicas, mudanças de hábitos de consumo e a chegada de novos concorrentes. Mas existe um risco que nem sempre aparece nos balanços: o conflito entre aqueles que controlam o patrimônio e a empresa.
Divergências entre gerações, disputas pelo controle, questionamentos sobre a administração do patrimônio e desacordos sobre a sucessão podem deixar de ser questões privadas. Quando família, propriedade e gestão se confundem, o conflito pode alcançar a governança, comprometer decisões estratégicas e, em situações mais graves, atingir até mesmo as fontes de financiamento da atividade empresarial.
A trajetória das Lojas Marabraz oferece um exemplo. Depois de décadas de crescimento, a família controladora passou a protagonizar sucessivas disputas patrimoniais e societárias. Agora, a história ganhou um novo capítulo: empresas do grupo responsável pela operação da rede ingressaram com pedido de recuperação judicial envolvendo aproximadamente R$ 140 milhões em débitos.
De uma pequena loja a uma das maiores varejistas de móveis do país
A história empresarial da família começou com Abdul Fares, imigrante libanês que chegou ao Brasil na década de 1950. Após sua morte, em 1978, três de seus quatro filhos — Nasser, Jamel e Adiel — assumiram os negócios e posteriormente adquiriram a marca Marabraz. A expansão foi expressiva: a empresa investiu em distribuição e publicidade e transformou-se em uma das marcas mais conhecidas do varejo popular de móveis.
O sucesso empresarial, entretanto, passou a conviver com disputas familiares. Um primeiro conflito relevante envolveu Fabio, o quarto irmão, que se retirou da sociedade. Enquanto seus irmãos sustentaram que ele teria recebido R$ 44,75 milhões ao longo de dez anos, seus filhos posteriormente passaram a questionar judicialmente a operação e a reivindicar participação sobre as Lojas Marabraz.
Em paralelo, foi estruturada a LP Administradora de Bens, holding que concentrava parcela importante do patrimônio imobiliário familiar. Nasser, Jamel e Adiel transferiram suas participações aos filhos. Na geração seguinte, porém, surgiram novos conflitos. Abdul e seu primo Nader chegaram à administração da holding, enquanto seus pais passaram a questionar judicialmente a transferência das quotas e a própria condução do patrimônio.
A disputa chegou ao Judiciário. Em dezembro de 2024, uma tutela de urgência bloqueou quotas e restringiu atos de disposição sobre o patrimônio da holding. Em março de 2025, sentença de primeira instância reconheceu como simulada a compra e venda de quotas entre pais e filhos, declarou o negócio nulo e determinou o retorno das participações e da administração aos pais. A decisão foi objeto de recurso.
Até então, essa história poderia ser vista essencialmente como um complexo conflito patrimonial entre gerações de uma família empresária. Os acontecimentos de 2026 demonstraram, contudo, como as fronteiras entre patrimônio familiar e atividade empresarial podem ser muito menos claras do que parecem.
Um novo capítulo: a recuperação judicial da Marabraz
Em 15 de agosto de 2026, a Comercial de Móveis Jordanésia e outras quatro empresas ligadas à operação das Lojas Marabraz — S.V.C. Jaraguá, Comercial Móveis das Nações, Comercial Zena Móveis e Monta Móveis — apresentaram pedido de recuperação judicial. Segundo o Valor Econômico, o valor atribuído aos créditos sujeitos ao processo é de R$ 140,19 milhões.
A recuperação judicial é um instrumento destinado a permitir que empresas em crise econômico-financeira reorganizem suas obrigações e busquem preservar uma atividade considerada viável. Portanto, recuperação judicial não é sinônimo de falência. No caso da Marabraz, entretanto, o pedido foi apresentado em cenário particularmente delicado: a Justiça já havia decretado a falência da Jordanésia em outro processo, decisão que se encontrava suspensa por efeito suspensivo concedido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.
Segundo o pedido de recuperação judicial, o problema estaria principalmente no financiamento da atividade. Imóveis comerciais e centros de distribuição pertencentes à sociedade patrimonial da família eram historicamente utilizados para reforçar as garantias oferecidas aos bancos. Com a ruptura societária e familiar e a perda do controle desses ativos pelos administradores responsáveis pela operação, as instituições financeiras teriam exigido novas garantias, reduzido limites, elevado custos e deixado de renovar linhas essenciais ao capital de giro.
O resultado foi um círculo de deterioração: menos crédito reduziu a liquidez; a menor liquidez aumentou a percepção de risco; e o aumento do risco trouxe novas restrições ao financiamento. Tudo isso ocorreu em um cenário já adverso para o varejo, com maior restrição de crédito e demanda oscilante no setor de móveis.
Quando o conflito societário começa a destruir valor
O caso Marabraz chama atenção porque permite enxergar uma consequência dos conflitos familiares que frequentemente é ignorada nos planejamentos patrimoniais: o patrimônio familiar pode não pertencer juridicamente à empresa e, ainda assim, ser essencial para o seu funcionamento.
Segundo os documentos apresentados na recuperação judicial, os imóveis da família não integravam o ativo da varejista, mas desempenhavam papel relevante na estrutura de garantias que dava suporte às operações financeiras da rede. Durante anos, esses ativos ajudaram a conferir robustez às operações de crédito. Quando a estrutura patrimonial deixou de estar sob o mesmo controle, o modelo de financiamento foi substancialmente alterado.
Isso não significa que todo o problema financeiro da Marabraz possa ser atribuído exclusivamente aos conflitos familiares. Fatores econômicos e setoriais podem ter restringido o acesso à obtenção de crédito. Mas, neste caso, a relação entre a disputa societária e a fragilização financeira não é apenas uma inferência externa: a própria documentação da recuperação judicial demonstra que as disputas alteraram o modelo de financiamento que havia apoiado a operação durante décadas.
A situação revela um ponto fundamental. Conflitos societários prolongados podem gerar custos jurídicos e administrativos, atrasar decisões, fragmentar o poder, dificultar investimentos e comprometer a confiança de bancos, fornecedores e parceiros. Quando, além disso, a estrutura patrimonial familiar está economicamente conectada à empresa operacional, a disputa deixa de atingir apenas os sócios. Ela pode começar a destruir valor empresarial.
Arquitetura sucessória: preservar patrimônio também significa preservar a empresa
O caso Marabraz demonstra porque planejamento sucessório não pode ser confundido com simplesmente transferir bens ou quotas aos filhos. Em famílias empresárias, sucessão patrimonial e sucessão de poder são problemas diferentes e precisam ser tratados conjuntamente. Transferir a propriedade sem estabelecer quem administra, quem decide, como são resolvidos os impasses e quais limites devem ser observados pode apenas antecipar para a geração seguinte conflitos que surgiriam no inventário.
A arquitetura sucessória precisa integrar planejamento patrimonial, governança corporativa e familiar, acordo de sócios, critérios objetivos para ingresso de herdeiros na gestão, regras de administração, mecanismos de solução de impasses, critérios para compra e venda de participações e proteção dos fundadores. Instrumentos como acordo de sócios e protocolo familiar são especialmente relevantes porque permitem transformar expectativas familiares em regras conhecidas antes que o conflito aconteça.
Nos artigos anteriores sobre o caso Marabraz, já destacávamos justamente a importância desses instrumentos para conferir transparência à gestão, definir direitos e obrigações e estabelecer procedimentos para situações de conflito.
Nenhuma arquitetura sucessória é capaz de impedir que pais, filhos, irmãos ou primos discordem. Essa nunca deveria ser sua promessa. Sua função é impedir que a divergência pessoal se transforme automaticamente em paralisia societária, disputa patrimonial ou risco empresarial. Preservar um legado não significa apenas decidir quem receberá o patrimônio: significa construir uma governança capaz de fazer com que a empresa sobreviva à própria sucessão.
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